quinta-feira, 15 de março de 2012

Cadê as ciclovias? Bicicletas e mobilidade urbana


Cadê as ciclovias?
Bicicletas e mobilidade urbana





O espaço urbano de Timóteo vem passando por profundas modificações nos últimos anos. Na esteira do crescimento das linhas de financiamento, o mercado imobiliário ergueu prédios e modificou a paisagem de muitos bairros. Na esteira da ampliação da capacidade de consumo do brasileiro, cresceu o número de carros e motos. O que tem feito o poder público local? Parecemos mais uma “cidade à deriva”. Debrucemo-nos sobre um pedacinho dessa discussão. Vejamos como (não) andam os esforços para inserir a bicicleta no desenho urbano da cidade.


A bicicleta foi eleita pela ONU como o transporte ecologicamente mais sustentável do planetaDe outro lado, o automóvel privado é o grande poluidor do ar do planeta.


Talvez a maior e a pior revolução do século XX, o automóvel colonizou a cidade, o espaço e o tempo de circulação. No Brasil, a intensidade dessa colonização foi absurda, afirmando-se na segunda metade da década de 50 (Plano de Metas) e durante o regime militar (64-85).


Trata-se de uma cultura rodoviarista, que dispensou o modo de transporte sobre trilhos no espaço inter-urbanoTrata-se de uma cultura, que assim voltada para o automóvel, pouquíssima atenção deu aos modos de transporte coletivo (ônibus e metrô) e não motorizados (a pé e de bicicleta) no espaço (intra) urbano.

Segundo o Instituto Rua Viva, o automóvel ocupa 90% do espaço viário, para transportar apenas 20% das pessoasAlém desta irracionalidade, compromete excessivamente os recursos do SUS em função dos acidentes gerados, gera deseconomias em decorrência dos congestionamentos e é extremamente nocivo ao meio ambiente.

Urge transformar nossa política de mobilidade urbana, centrada no uso indiscriminado do automóvel!
É preciso pensar em “mobilidade urbana sustentável”, entendida esta como: conjunto de políticas de transporte e circulação que visam proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço urbano, através da priorização dos modos de transporte coletivo e não motorizados de maneira efetiva, socialmente inclusiva e ecologicamente sustentável.


Esta nova abordagem tem como centro das atenções o deslocamento das pessoas e não dos veículos


É aí que entra a bicicleta, que traz consigo, dentre outras vantagens:
Baixo impacto ambiental.
Baixo porte da infra-estrutura necessária à circulação e ao estacionamento.
Única alternativa ao alcance de todas as pessoas, não importando a renda.
Importante opção no transporte de curta distância.


Dessa maneira, viabilizando-se como um transporte alternativo/complementar ao automóvel:
Promove saúde para seus usuários.
Redução da poluição ambiental e do congestionamento do trânsito.
Redução do custo da mobilidade das pessoas e inclusão social.


Em TIMÓTEO...
Imaginemos como poderíamos melhorar o trânsito e as condições de vida da população, sobretudo da população de baixa renda, se dispuséssemos, como no mapa abaixo, de ciclovias partindo das várias pontas da cidade (Macuco, Ana Moura, Cachoeira do Vale e Ana Rita) até a Praça 1° de Maio
O que falta? A resposta, já sabemos: falta vontade política!

Na década de 1980, no Ministério dos Transportes, o Grupo Executivo para a Integração da Política de Transportes – GEIPOT levou a cabo os Estudos de Transportes Urbanos em Cidades de Porte Médio – ETUB-CPM. Em Minas Gerais, participaram cidades como Patos de Minas, Itajubá, Governador Valadares, Ipatinga e Timóteo.

É muito provável que a parte deste estudo referente a Timóteo, caso ainda exista, esteja engrossando alguma pratilheira por aí afora... São as descontinuidades da administração pública brasileira e timotense.

Quase três décadas depois, o tema voltou à pauta da política local. No dia 20 de outubro de 2009, a câmara legislativa, por meio da Lei nº 3.000, autorizou o executivo a elaborar o Plano Cicloviário MunicipalEm no máximo 12 meses, este plano deveria estar aprovado! Além de um diagnóstico das ciclofaixas e ciclovias existentes e em execução, definiria ações a realizar para ampliar a malha.

O plano não foi elaborado, lembrando que já estamos em 2012 e o prazo era até outubro de 2010.

Uma parte do plano cicloviário seria a ciclovia Santa-Maria Alphaville. Foi assinado convênio para tal com o Ministério dos Esportes no dia 18 de dezembro de 2009. Os recursos federais somariam R$409.500,00 e a contrapartida municipal, R$53.000,00. Ao todo: R$ 462.000,00. Apenas no dia 21 de junho de 2010 ocorre a licitação, vencendo a Semarc Engenharia, de Belo Horizonte.

No mês de setembro, 1,6Km estavam asfaltados. Tratava-se de 1,6 em 4,8Km previstos para o trecho do Santa Maria ao Limoeiro. A situação atual, em janeiro de 2012, depois de dois anos da assinatura do convênio, permanece praticamente a mesma. Apenas um pequeno trecho concluído e, vale dizer, muito mal feito.

Enquanto o mercado imobiliário anda às soltas, quase não havendo controle sobre os novos empreendimentos privados e seus impactos sobre o ambiente urbano e o trânsito; enquanto cresce a frota de carros e motos, em decorrência da ampliação da capacidade de consumo do trabalhador brasileiros nos últimos anos; enquanto o poder público municipal enrola a elaboração do Plano Local de Habitação de Interesse Social; enquanto se anuncia um nebuloso pacoto de gestão urbana; enquanto se distribuem títulos de propriedade com critérios ainda não esclarecidos; enquanto os políticos se preparam para as eleições...

Nossa rede cicloviária e nossos bicicletários continuam (desde 1980, vale lembrar!) no papel.

Não há interesse político para implantar em Timóteo uma mobilidade urbana sustentável.

Parece remota a possibilidade de nos reencontrarmos com aquele passado em que, como relembram nossos pais e avós, as bicicletas andavam até sozinhas na cidade.

Se esse dia acontecer, o trajeto das bicicletas, é certo, não mais não será Acesita-casa, casa-Acesita. O desemprego tecnológico ocorrido na década de 1990 com a privatização não o permitirá. Mas haverá muitos outros trajetos. Com ciclovias de todas as pontas da cidade até a Praça 1° de Maio, como no mapa acima, daríamos um grande passo no sentido de uma cidade e uma mobilidade urbana mais justas social e ecologicamente.

Fontes:

Plano Diretor de Timóteo
Lei nº 3.000, de 20 de outubro de 2009


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